Normalmente em palestras do meu livro para adolescentes eu gosto de contar de onde vem a minha ligação com a leitura e a escrita e como ela foi importante em momentos decisivos da minha vida.
Estudei todo o ensino fundamental no SESI e entre a primeira e a quarta série as aulas eram no período da tarde. Saíamos sempre 17h e meus amigos logo iam embora para suas casas. Por uma questão de segurança passei a aguardar meu pai na biblioteca da escola e o que acontecia era que quase todos os dias meu pai chegava apenas às 18h (até hoje uma das músicas que mais me faz lembrar dele é "Ave Maria" justamente por esses momentos de retornar para casa após as aulas). Nessa uma hora comecei a experimentar e a cultivar o hábito da leitura. Todos os dias eu mantinha esse ritual. Passou de obrigação escolar para um prazer enorme, quando não terminava na biblioteca levava o livro para casa e assim foi durante anos. Em algumas fases ele ficava mais presente, outras mais ausente por falta de tempo mesmo, mas sempre ali, fazendo parte da minha construção como cidadão.
Lembro-me de quando cheguei em São Paulo, aos 20 anos, e passei a reparar nas pessoas no metrô e ônibus sempre acompanhadas de livros para passar aquele tempo diário, confesso que sentia certa inveja por nunca ter treinado o hábito de ler em movimento (passo mal até hoje com isso!), momento que reparava, observava pessoas nesse certo transe, nessa viagem que o livro proporciona. Conheci, desta forma, inúmeros autores e títulos que geraram em mim uma grande vontade de ler, isso baseado nas reações que via nos outros.
Quase dez anos depois e volto a morar em sampa. Muita coisa mudou. As expressões e os títulos variados foram trocadas por jogos no celular, conversas em aplicativos ou curtidas em redes sociais. E na maioria das vezes acompanhadas por uma cara mais blasé. Acho triste. Uma nova geração inteira que não consegue se concentrar por mais de 15 minutos. Inúmeros conhecidos que não resistem a tentação de verificar o celular e perdem momentos importantes em filmes, interrompem leituras, não aprofundam, não curtem e não sentem o que, por exemplo, um livro pode fazer com a gente.
Mas neste último mês comecei a buscar mais, a reparar, quase que como uma pesquisa, uma investigação mesmo. Entro no transporte público e procuro... Nem tudo está perdido. Tenho encontrado, cada vez mais, pessoas com o tradicional livro aberto. Concentrados - apesar do movimento carro - e com um leve sorriso no rosto, ou uma inquietação e ansiedade aparente. Algumas vezes vejo até uma lágrima contida.
Ufa, como é bom!!
E continuo não conseguindo ler em movimento, droga!
#Dica
Fuçando na web achei esse acessório que pode ajudar quem acaba lendo utilizando apenas uma das mãos ;)

